quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Resgaste Histórico: Revista O CRUZEIRO de 27/10/1970

Apresentam-se aqui, como prometido, as provas materiais que Otília Diogo fraudava, entre elas o crucifixo de Irmã Josefa e as barbas de Alberto Veloso. No final do post há um link para baixar a reportagem completa em alta resolução. Agradecemos muito a Guilherme Amaral Santos, que disponibilizou esse material. Guilherme fez novos vídeos sobre Chico Xavier, o primeiro deles podendo ser visto aqui.

O Cruzeiro (27 de Outubro de 1970) 
Irmã Josefa não existe mais. Foi descoberta no interior de uma mala, muda e sem o característico perfume de flores. 6 anos depois que O CRUZEIRO publicou uma série de reportagens sobre os casos de materialização em Uberaba e Andradas, conseguindo desmascarar fotograficamente os espíritos trazidos pela médium Otília Diogo, apareceram finalmente as provas materiais da grande farsa que provocou enorme repercussão em todo o país. O fim da irmã Josefa e de seus companheiros do além ocorreu em São Paulo, precisamente na casa de um cirurgião plástico que hospedou durante alguns dias a famosa médium Otília. Demorou um pouco, mas a verdade agora está completa sem nenhuma interrogação.

clip_image002A MATERIALIZAÇÃO DE UMA FARSA
Reportagem de LUIZ ANTONIO LUZ e CARLOS PICCINO  
EM 1964, A SUPOSTA IRMÃ JOSEFA ERA UM ASSUNTO NACIONAL
18 de janeiro de 1964 — Sob o titulo Fenômenos de Materialização, O CRUZEIRO publica uma extensa reportagem dedicada às pesquisas que estavam em desenvolvimento na cidade de Uberaba. Alicerçada pelos depoimentos de médicos e cientistas conhecidos em Minas Gerais, numerosas fotografias ilustravam a materialização de vários espíritos.
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1.° de fevereiro do mesmo ano — A equipe de repórteres destacada pela revista para investigar os acontecimentos em Uberaba traz a público uma outra versão dos fatos. Mário de Moraes, Jorge Audi, José Franco, Henri Ballot e Nilo Oliveira, aceitaram o jogo imposto pelos médiuns patrocinadores para despistar, ao mesmo tempo que checaram todos os detalhes que envolviam a autenticidade dos fenômenos. A verdade apareceu.
Otília Diogo, médium, era a responsável pelo aparecimento dos espíritos. Entre eles, se destacavam: irmã Josefa, o médico Alberto Veloso, Japi (uma índia de 7 anos) e Adri (identificado como um índio sul-americano). Era amarrada antes do início da sessão, a fim de que os espectadores não desconfiassem de sua participação direta na cena posterior.
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Uma pequena sala, luzes apagadas, música religiosa: o clima perfeito. Maria José Domini (irmã Josefa) surgia materializada, o rosto e o corpo ocultos por um véu. Uma voz delicada falava aos presentes, criando um clima sobrenatural. Mesmo presos a uma série de condições ditadas pelos organizadores da sessão, que chegavam a distribuir os filmes para os fotógrafos, e só preto e branco, no entanto conseguiram fotografar a irmã Josefa em cores. Graças aos detalhes e nuances que a cor consegue dar às fotografias, descobriu-se o vulto de Otília Diogo por trás do véu. A fraude era evidente. 
Uma onda de protestos, chegando ao ponto de vários jornais do Brasil apresentarem editoriais pagos acusando os repórteres de O CRUZEIRO, tornou ainda mais polêmico o assunto. As materializações em Uberaba nada significavam, seja no plano espiritual, seja no científico. O ectoplasma recebido por Otília não passava de uma faixa de gaze retorcida. As experiências acabaram como por encanto e o nome Otília Diogo foi por todos esquecido. Apesar de tantas provas, ela habilmente desaparecera de cena, evitando a prisão. 
Mas faltava uma prova definitiva no caso: a roupa usada pelos espíritos. 
·         um “espírito” bem esperto 
Irmão José, casado, 33 anos, é o responsável pela igreja do Perpétuo Socorro, no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, onde se pratica o culto ao padre Cícero de Juazeiro. Apesar de ser missionário da Igreja Católica Ortodoxa Italiana, colaborava com o Centro Espírita Paz e Amor, que funciona na cidade de Campinas. O mesmo local onde Otília Diogo realizava, nestes últimos meses, suas sessões de materialização. 
O missionário chegou a levar pessoas da sociedade paulista aos trabalhos da médium. Como antigo estudioso dos fenômenos da materialização, irmão José organizou verdadeiras caravanas em direção a Campinas. O próprio Irmão conta que estava plenamente convencido da bondade e sinceridade da médium; 
— Confesso que fiquei profundamente impressionado com os poderes daquela mulher. Ao ver a Irmã Josefa materializada diante de mim, nada mais podia fazer naquele instante senão respeitar o que estava vendo com meus próprios olhos. Convidei-a, inclusive, para conhecer a minha igreja em Santo Amaro. Ela veio um dia e distribuiu aos fiéis pétalas de rosa que, segundo afirmava, estavam abençoadas pela irmã Josefa. Fiquei imensamente feliz naquele dia. Passei a falar em meus programas no rádio sobre as maravilhas que eu havia presenciado em Campinas. Muitas pessoas passaram a acreditar na encarnação dos espíritos, e a crença em Otília chegou a tal ponto que muita gente dava ajuda financeira para sustentar a “sopa dos pobres” que a médium dizia manter. Hoje me envergonho disso. Eu nunca esperei que essa mulher pudesse mistificar tão grosseiramente. 
A devotada médium Otília resolveu tirar algumas rugas 
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No início de 1964, a aparição da irmã Josefa era confirmada por uma equipe de médicos e cientistas mineiros, que realizaram um extenso programa de pesquisas sobre a materialização de espíritos na cidade de Uberaba. Fotografada pelos repórteres de O CRUZEIRO durante as aparições, junto com o dr. Valdo Vieira e o médium Chico Xavier (de óculos escuros), Otília foi reconhecida por trás do véu. Agora, depois que Otília se submeteu a uma operação plástica, tudo ficou provado.
DE CARA NOVA, ELA NÃO IMAGINAVA QUE A FARSA TERMINARIA 
·         doutor, tire as minhas rugas”  
clip_image009 O DOUTOR S. M. (VISTO COM O IRMÃO JOSÉ)
A amizade entre o dr. S. M. (omitimos o nome a seu pedido) e o irmão José já vem de muitos anos. A clínica de propriedade do cirurgião plástico atende às crianças mantidas pela igreja do Perpétuo Socorro. Convidado pelo missionário, assistiu aos fenômenos provocados por Otília no centro espírita em Campinas. Passou a ser um espectador assíduo, na tentativa de descobrir a verdade científica do caso. 
Numa sexta-feira do mês de julho. Otília aproximou-se do médico, ao terminar a sessão: 
        Doutor, acabe com as rugas do meu rosto. Eu ficaria muito agradecida se o senhor pudesse fazer isso. 
Apesar de surpreso com a vaidade repentina de Otília, sempre tão humilde, o médico concordou em realizar a plástica. A operação foi marcada para o mês seguinte. 
No dia combinado, a médium chegou à clinica do dr. S. M., muito sorridente e trazendo na sua bagagem uma pequena maleta, da qual nunca se separava. Após 12 horas de cirurgia, Otília foi removida para o seu quarto. Dias depois, na tarde em que recebeu alta, procurou o médico em seu consultório, que nada lhe havia cobrado pelos serviços: 
        Como gratidão, eu vou fazer uma sessão de materialização especial para o senhor e sua família. 
O dr. S. M. lembra-se bem desse dia: “Evidentemente, eu tive de concordar, pois gostaria de ver mais de perto o fenômeno. Sempre respeitei o espiritismo sério, o espiritismo-ciência. Pensava que Otília fizesse parte dessa gente”. 
·         uma demonstração muito especial
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Durante os dias que antecederam a demonstração, Otília ficou hospedada na residência do médico, em Santo Amaro. Foi então que o dr. S. M. começou a notar que a visitante mantinha permanente vigilância à pequena maleta, a mesma que trouxera para a clínica. 
— Achei que ela se preocupava demais com a maleta de viagem. Conversei sobre as minhas observações com minha mulher, mas ela achou que eu estava fazendo julgamentos precipitados. Assim como milhares de outras pessoas, minha esposa também já se influenciara pela personalidade e peio jeito cativante, simples e inculto da médium. 
Na noite da sessão especial, a casa do cirurgião plástico ficou repleta de convidados e amigos da família, ansiosos pelo início de “uma das experiências mais fantásticas até agora realizadas”. Entre os presentes, encontravam-se o coronel Guedes, diretor da Casa de Detenção de São Paulo; o advogado Isidoro Gallo, muito conhecido no bairro de Santo Amaro; o irmão José e grande número de estudantes. 
No interior da mala, as roupas do além
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O cirurgião plástico S. M., que preferiu omitir o nome à reportagem, hospedou Otília Diogo em sua própria casa, após a operação. Desconfiado das atitudes da médium, desvendou o mistério: uma pequena maleta guardava os espíritos e seus acessórios. A atriz Maria Viana, ajudada pelo irmão José e o advogado Isidoro Gallo, mostra como a farsante guardava as roupas no interior de sua cinta-calça. Com uma grande habilidade e rapidez, Otília se libertava das correias, vestia as roupas em segundos e aparecia aos espectadores como a finada irmã Josefa. 
DESVENDOU A TRAMA
Para realizar o trabalho, Otília Diogo fez uma série de exigências: solicitou o grande salão nos fundos da casa e, entre outras coisas, determinou que uma corda fosse estendida de fado a fado, isolando o público do local da função, a cerca de oito metros. Da clínica do dr. S. M. trouxeram uma cadeira de otorrino, onde a médium foi amarrada. O coronel Guedes, o dr. Isidoro Gallo e o dono da casa prenderam os pulsos de Otília nos braços da cadeira. 
·         e apareceu a irmã Josefa
Como sempre acontecia desde os tempos em que praticava com espíritos em Uberaba e Andradas. Otília Diogo não permitiu que o dr. S. M. examinasse detalhadamente suas roupas. Apenas um exame superficial pôde ser feito. De suas peças íntimas, ela só mostrou o soutien, pois alegou estar em período de menstruação.
Conforme o combinado, pediu a todos que se mantivessem além da corda estendida. As luzes se apagaram e uma vitrola passou a tocar músicas religiosas. De repente, o interruptor colocado ao lado da médium foi acionado pela primeira vez. Numa fração de segundos, para espanto geral (as luzes se acendiam e apagavam, alternadamente), todos viram a Irmã Josefa. Vestida de branco, as mãos postas em atitude de oração, a cabeça inclinada para baixo e as pernas unidas. Entre as vestes, destacavam-se o crucifixo e um rosário de pedras brilhantes. Uma voz suave dizia lentamente: “Viva Jesus”, enquanto a irmã cumprimentava alguns dos espectadores.
Ao contrário dos amigos, emocionados desde o inicio, o dr. S. M. procurou, nos pequenos intervalos em que a irmã aparecia, observar uma série de detalhes importantes. Quando a materialização chegou ao fim e a luz foi acesa, todos estavam fascinados, menos o médico.

        Procurei observar bem o desenvolvimento do ectoplasma, mas nada constatei no plano científico. Achei também que o véu, a grinalda e a luva da irmã Josefa estavam sobrepostos, amarrotados em várias partes.
Outro detalhe aumentou as suspeitas do médico:
        Notei, apesar da rapidez como a imagem surgia e desaparecia, que o véu materializado trazia vestígios bem claros de vincos mais ou menos distantes, principalmente na parte inferior, o que me fez concluir que estivera dobrado em retângulos momentos entes. Na mesma hora me lembrei da maleta que merecia tantos cuidados da médium: era rasa e retangular.
Para o dr. S. M„ apenas duas perguntas exigiam respostas: a maneira como apareciam as outras entidades materializadas por Otília, Japi, a Indiazinha que tocava flauta, e o dr. Vefoso, que usava cavanhaque e bigode. Finalmente, como ela se libertava da cadeira?
·         o último ensaio geral
Na noite anterior ao retorno de Otília para Campinas, a família do médico recebeu alguns parentes e amigos para comemorar o aniversário de uma das filhes. Uma noite alegre, com muito uísque e histórias de Otília sobre as rugas que tirou da operação. Estavam todos na sala conversando. As crianças assistiam a televisão. Em dado momento, bastante alcoolizada, a médium deu alguns passos pelo cômodo e sentou-se no chão, diante do televisor. Em gesto extremamente rápido, ela apanhou uma mela de uma das pessoas na sala e amarrou-se com uma técnica de artista, fato que chamou a atenção do dr. S. M. Quando lhe perguntaram o que estava acontecendo, Otília foi brusca na resposta:
— Estou recebendo Japi!
Suas palavras chocaram os convidados. “Perguntei-lhe, conta o médico, se era possível para uma médium receber com a luz acesa. Ela respondeu-me que Japi desejava naquela noite descer com a luz acesa”. Depois de vários estertores e contrações faciais estranhas, Otília sossegou. Em seguida, tomou mais alguns uísques, soltou a meia que ela mesma havia amarrado ao pulso e pediu para ir dormir. Não estava em condições de caminhar, precisando da ajuda da minha esposa para chegar ao quarto. Eu pensava em três coisas: na maleta, na perfeita mudança do timbre de voz no momento em que recebia a índia, e na sua capacidade de se amarrar e desamarrar sem ajuda, em frações de segundos. Estas evidências somadas começaram a dar uma nítida impressão de que havia uma farsa vulgar em seus trabalhos.”
DURANTE 6 ANOS, A MÉDIUM LUCROU COM OS SEUS “TRABALHOS”
·         o crime estava dentro da mala
A partir daquele instante, o médico ficou transtornado: “Uma angústia terrível tomou conta de mim, Achei que era quase um dever reverter toda a verdade”. Depois que os convidados saíram, chamou a esposa e conseguiu convencê-la a ir até o quarto onde dormia Otília. Os dois procuraram pela chave em cada gaveta e na roupa usada. A médium dormia profundamente, não pressentindo a presença do casal. A esposa do médico decidiu revistar Otília e; quando já ia desistir, notou uma saliência no soutien. As chaves estavam ali.
Na presença das filhas, das empregadas da casa e da esposa, o dr, S. M. abriu a maleta misteriosa. A irmã Josefa apareceu desmontada. O crucifixo foi o primeiro, depois veio o véu, que como o rosário estava impregnado de material fluorescente. O manto, o capuz e as luvas de renda da irmã Josefa estavam no fundo da mala, contrastando com um objeto de aparência estranha: eram as barbas do dr. Veloso. Duas gaitas também estavam na mala, e logo se deduziu que pertenciam a Japi, em suas aparições tocando flauta. Embrulhados num pano, foram encontrados dois pequenos vidros e uma bomba de spray. Um deles cheio de éter (dr. Veloso) e o outro contendo o perfume da irmã Josefa, Ambos serviam para reforçar a presença do espírito.
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A farsa de Otília Diogo estava ali. Dividida em vários pedaços.
·         assim, Otília perdeu o emprego
Passavam alguns minutos das 9 horas da manhã seguinte, quando a médium acordou. A família do dr. S. M. rodeava a cama. No centro do quarto, bem visível, estava a maleta aberta. O médico falou secamente sobre a descoberta da farsa. De imediato, a reação de Otília. Saltou da cama com as mãos na cabeça e começou a gritar desesperada:
        Irmã Josefa, você me abandonou, Por que você me abandonou?
Soltando palavrões a todos, a falsa médium sentia o fim. Só parou de xingar quando ameaçaram entregá-la à polícia. Assustada, os olhos muito abertos, o rosto ainda amassado pelo sono, ela contou uma história para salvar alguma coisa:
        Perdi a mediunidade em 1965, mas achei que devia continuar fazendo materializações. Não queria que ninguém notasse. Fiz exercícios de braços e pernas, treinando durante algum tempo. Logo depois senti que já podia voltar a fazer meus trabalhos. Eu sei que nada estava sendo verdadeiro, mas continuei. Eu imploro a vocês: queimem tudo isso, por favor.
Outubro de 1970: encerrado o caso das materializações em Uberaba.
Irmã Josefa nunca mais sairá da mala
Dobradas cuidadosamente, as roupas da irmã Josefa estavam prontas para uma nova aparição. Na maleta também estavam as barbas do dr. Alberto Veloso, o crucifixo e o rosário fluorescente. O irmão José, que aparece nas fotos inferiores, hoje se envergonha dos tempos em que foi enganado pela falsa médium de Uberaba.
Link para baixar a reportagem em alta resolução:
http://www.4shared.com/file/243832012/b95efcaa/O_Cruzeiro_Outubro_de_1970.html

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