sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A CARTA EM QUE CHICO XAVIER ACUSA DIVALDO PEREIRA FRANCO DE PLÁGIO (TEXTO INTEGRAL)

Uma relíquia histórica! Finalmente foi revelada a carta em que Chico Xavier acusa Divaldo Pereira Franco de plágio. O médium mineiro chega mesmo a dizer que Divaldo foi tomado por espíritos inferiores. Antes da carta em si, porém, há uma introdução do escritor e médium Jorge Rizzini (já falecido) em que ele fornece informes sobre os acontecimentos da época que culminaram na carta.

Repercutiu fundo no movimento espírita nacional a denúncia feita em 29 de fevereiro de 2004 pela TV-Globo de que Divaldo Pereira Franco plagiara mensagens psicografadas por Chico Xavier. A reportagem colocara diante dos olhos do público trechos de uma carta com oito páginas datilografadas assinada por Chico Xavier relatando o lamentável episódio. A carta endereçada ao saudoso companheiro Joaquim Alves traz a data de dez de junho de l962. Chico Xavier tinha cinquenta e dois anos de idade e era psicógrafo há mais de trinta anos. Divaldo Franco, por sua vez, era relativamente moço e gozava grande fama de notável orador que é.
Apresso-me a acrescentar que não foi a carta a causa inicial do escândalo em l962. Ora, três anos antes, ou seja, em 1959, Divaldo Franco entregara à Federação Espírita Brasileira os originais de seu primeiro livro tido como mediúnico. Apesar do prefácio incentivador assinado por André Luiz, foi a obra recusada pela FEB por ter profunda semelhança com as desse Espírito psicografadas por Chico Xavier.
Na carta em resposta à consulta de Joaquim Alves afirma “Vi tudo e calei-me. (…) Desde 1959, aguardo que se levante um dos companheiros representativos do movimento espírita a fim de tratar do grave problema. Ninguém apareceu.”
A primeira denúncia das mensagens copiadas, inclusive, os títulos, pelo Divaldo Franco – plágio inegável, conforme afirmei na entrevista que concedi à Rede Globo de Televisão – veio a público em abril de l962 através do folheto “Para onde vamos, espíritas?”, editado pelo Movimento Universitário Espírita de São Paulo, então presidido por Nair Mortensen.
Um mês depois, ou seja, em 31 de maio de l962, eis que o Grupo Espírita Emmanuel, da cidade de Garça, no interior paulista, espalhou no movimento espírita nacional trinta mil exemplares do folheto intitulado “Estudo de Mensagens Copiadas”. O grupo de Garça tinha Emmanuel por patrono espiritual e era presidido por Rolando Ramaciotti, o qual se tornaria editor de obras psicografadas por Chico Xavier.
O estudo fora feito por confrades competentes. Na introdução lê-se que: “no estudo aqui apontado, não cabem quaisquer alegações sobre universalidade do ensino dos espíritos, memória inconsciente, aproximação literária, coincidência de instrução, afinidade temática e nem tampouco esse ou aquele recurso à tese do animismo, porque as cópias de ambas as mensagens a que nos referimos, quais foram feitas, somente poderiam ter sido efetuadas com os originais à frente dos olhos.”
O plágio era explícito. Mestre Herculano Pires, então, com seu profundo conhecimento doutrinário e literário veio a público através de sua coluna espírita no “Diário de São Paulo” em defesa da obra e da mediunidade de Chico Xavier. Assim agiu porque, de acordo com suas próprias palavras em uma carta dirigida a Deolindo Amorim, “não sou dos que cruzam os braços diante das mistificações e dos abusos que se praticam no meio espírita”. E em outra carta cuja cópia também possuo: “Entendo que a função do jornalista espírita é servir lealmente à Doutrina, mesmo desgostando quem quer que seja ou colocando-se em má situação perante a maioria.”
Divaldo Pereira Franco, porém, teve defensores, entre eles Júlio Abreu Filho e Deolindo Amorim. Júlio enviou cartas à Nair Mortensen, ao Grupo de Garça e a Herculano Pires. Mas a argumentação era frágil e o plágio indefensável.
Deolindo Amorim trocou também correspondência com Herculano Pires e em sua carta de 12 de novembro de l962 fez o seguinte comentário comprometedor:
“São, como já disse, dois missionários. Chico, na produção psicográfica; Divaldo, na palavra falada, levando consolo e entusiasmo a muita gente, por esse Brasil inteiro. São dois valores apreciáveis no movimento espírita em campos diferentes.”
O leitor atento observou a expressão “em campos diferentes”, expressão absolutamente correta.
Notemos agora que treze anos depois (mês de maio de l975) Deolindo Amorim ao comentar no jornal “Correio Fraterno do ABC” o livro “Grilhões Partidos”, de Divaldo Pereira Franco, fez a seguinte observação:
“O autor, que recebeu a obra do plano espiritual, tem o seu estilo pessoal, a sua maneira própria de dizer e é natural que transmita a mensagem através de suas expressões, sua linguagem característica. Divaldo exprime-se corretamente, como se sabe, mas tem o seu feitio intelectual, que o identifica muito bem quando fala ou escreve.”
Ao contrário, portanto, de Chico Xavier, cuja diversidade de estilos é impressionante, o que constitui prova da autenticidade de sua mediunidade.
Quer dizer: os livros atribuídos aos espíritos através de Divaldo apresentam um só estilo, o dele. Que o conteúdo seja dos espíritos, é possível, mas nesse caso temos de admitir que as mensagens psicografadas por Chico Xavier foram copiadas e adulteradas por sugestão de espíritos galhofeiros e nos momentos em que Divaldo encontrava-se invigilante… Que espíritos das trevas envolveram-no não há como negar. Aliás, é o parecer de Chico Xavier. Leiamos este seu trecho contido na carta:
“… espíritos inferiores se utilizam do nosso caro Divaldo e atacam o nosso movimento espírita pela retaguarda.”
E Chico, perplexo, interroga:
“Porque razão esse propósito deliberado de arrasar com as mensagens dos nossos Benfeitores Espirituais, recebidas por meu intermédio, desfigurando-as, descaracterizando-as, ferindo-as, transfigurando-as? Não posso inocentá-lo, porque isso acontece há muito tempo e ele possui bastante auto-crítica para reconhecer que as entidades que se valem dele para isso estão entrando numa atitude, francamente abusiva por desrespeitosa ao Espiritismo e à Mediunidade, a ponto de sacerdotes católicos-romanos já estarem se manifestando pela imprensa indagando se sou eu ou ele o mistificador. De mim mesmo nada valho e estou pronto a receber por bençãos quaisquer injúrias que seja assacadas contra a minha pessoa, entretanto, no assunto, é a Doutrina Espírita que está sendo desprestigiada e dilapidada.”
Transcrevo, ainda, o seguinte trecho que revela, mais uma vez, a admiração que Chico Xavier tinha por Divaldo Pereira Franco. Leiamos:
“Divaldo tem largo futuro à frente. Ele não precisa, absolutamente, da psicografia para sustentar a amizade e o carinho dos amigos desencarnados e encarnados. Jesus colocou-lhe um facho de luz no verbo sagrado que ele, nosso amigo e companheiro tão querido, pode santificar, cada vez mais, dele fazendo a sua bandeira de serviço à Humanidade, crescendo sempre como um dos mais altos paladinos de nossa Causa no Brasil e fora do Brasil.”
Devo pôr ponto final nesta introdução à famosa carta de Chico Xavier. Não antes, porém, de acrescentar que declarei diante das câmeras da Rede Globo que era absurdo levantar a questão do plágio quarenta e dois anos depois do episódio. E acrescentei que Chico Xavier e Divaldo Franco somente se reencontraram em outubro de l977, ou seja, quinze anos depois. E psicografaram juntos… Mas nada disso os repórteres da TV-Globo colocaram no ar. Vejamos agora o texto integral da histórica carta de Chico Xavier. Ei-la com todas as vírgulas e pontos:

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